domingo, 30 de novembro de 2008

30 dias de sorvete de morfina

Trinta dias de sorvete de morfina
Abuso. Tolerância. Dependência.
Comemoração na Sorveteria,
esquina da Barata com a Sta Clara
Dose alta acaba rápido
Não demore a chegar
Não vou esperar

bloco de notas

................um bicho solto
................um cão sem dono
................um bandido
................um menino
................um duvida
................um abraça
................um sorri
................um é só lágrimas
................um eu partido
................dois de mim
................um quer tudo
................- e tudo é muita coisa ao mesmo tempo
................um quer nada
................- esse é potencialmente, mas só potencialmente, mais feliz

sábado, 29 de novembro de 2008

Paráfrase do beco

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..........Querido Manuel,
..................Eu vejo além do beco
..................O problema
..................é que além do beco não há
..................nada.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A arte de sumir e aparecer

Quinta-feira. Acabou o café. Sempre a mesma história. Saio para comprar café. Dessa vez mantenho os planos - é mais seguro. Volto para casa pelo caminho mais curto. Quero evitar surpresas. Não adiantou. Na esquina de casa, antes que eu possa reagir, ele aparece. O Gato de Alice sorri para mim. Conheço essa sensação. "Não sei o que fazer, não sei o que pensar" (lembra-se?) Não sorria assim, Gato de Alice! Eu posso não me recuperar quando, a seguir, você sumir. Resolução de ano-novo: parar de tomar café (ahahahaha...)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Um dia de Josés

11:35 - Saí da prova pensando em José...

"E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,........................(...)......................Se você gritasse,
o povo sumiu,..................................................se você gemesse,
a noite esfriou,.................................................se você tocasse
e agora, José?..................................................a valsa vienense,
e agora, você?................................................se você dormisse,
você que é sem nome,......................................se você cansasse,
que zomba dos outros,.....................................se você morresse...
você que faz versos,........................................Mas você não morre,
que ama, protesta?.........................................você é duro, José!"
e agora, José?

13:50 - Ligam-me os meus dois Josés, o irmão e o avô. Saudades...

17:30 - Na ABL, está o outro José, aquele ser sisudo, a falar do destrato com que se trata a Língua Portuguesa. "Só se pode transformar aquilo que se conhece profundamente." Recorda o Machado (o dono da casa). E diz que precisa inventar o inventar. Não tem de inventar nada novo. É preciso inventar o "inventar." E para isso "basta deslocar um pouquinho a iluminação do objeto e lá estará o objeto, novo." A conversa termina no Elefante, aquele que viaja. Ainda não conheço o elefante. Terei grande prazer em conhecê-lo, no meu exemplar autografado. Abro o livro e vejo a dedicatória mais bela que já vi em toda vida: "A Pilar, que não me deixou morrer." E viva o José.



terça-feira, 25 de novembro de 2008

Matrix, mirtilos & beijos roubados


Escrevendo em um cyber na galeria dos antiquários. Quarenta e oito horas sem computador dão a medida exata do novo paradigma da solidão humana. Se você não está conectado ao mundo virtual, você não existe. Matrix? Chove. Meus tríceps doem, mudou a série da academia. Parei no supermercado. Encontrei, surpreso, blueberries, que evocaram sonhos perdidos no tempo. Pareciam tão próximos e reais. Durou pouco. Também lembrei do filme, "My blueberry nights", aquele do beijo roubado, da espera e do retorno. Fico pensando em que fase estou - o beijo roubado, a espera ou o retorno. Melhor não pensar nisso. Melhor comer mais uns blueberries. Nem de longe são doces como os que se come no café-da-manhã em New York, mas são bons assim mesmo. Como pela lembrança, não pela doçura. Saudade filha-da-puta de alguém que não sei quem é, nem se existe, nem se é lugar, gente ou bicho. Criaturas imaginárias. Só resta um blueberry. Filho único. E agora? Guardo e deixo a realidade estregá-lo? Ou como e fico com a lembrança do que foi um dia? Tarde demais. Batalha perdida.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008


Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles
(Vaga Música, 1942)

domingo, 23 de novembro de 2008

Noite Transfigurada


Noite Transfigurada
(para o Leo)

noite transfigurada
cantada em versos decassílabos
de um pedaço de papel
rasgado
guardanapo de um café
que guarda
a recordação do que poderia ter sido
se não tivesse não sido
e simplesmente fosse
só um horóscopo
de domingo
esperança
do que talvez um dia será
quando as criaturas
não forem mais imaginárias
quando as vontades
não forem mais imaginárias
quando as imagens
não forem mais imaginárias
quando a noite deixar
de ser transfigurada
num pedaço de papel

Horóscopo de Domingo


sábado, 22 de novembro de 2008

Anamneses


Leito 5
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Francisco, quarenta anos, esquizofrênico. Só isso basta, esquizofrênicos não têm direito de ter outras doenças. Passeava no bosque. Imaginário? Parou, olhou a plantinha, achou bonitinha - parecia um mini-repolho. Comeu a plantinha. Voltou para o castelo. Subindo as escadarias que levavam à grande torre pensou: vou desmaiar. Quase inconsciente, chamou o dragão alado e pediu que o levasse ao grande mago curandeiro. Chegou desmaiado. Em coma, não há distinção entre loucos e não-loucos. De volta à "realidade". Insuficiência respiratória. Broncoaspiração. A plantinha foi parar no pulmão. Sepse. Necrose do pé. Vai ter que amputar. Não dá para esperar. Tem que ser agora. Amputa ou morre. Não pensa. Amputa logo. Choque séptico. Pressão caindo. Não responde ao tratamento. Vai parar. Parou. Ressuscita. Massagem. Adrenalina. Atropina. Adrenalina. Atropina. Adrenalina. Massagem. Bicarbonato. Nada. Não vai voltar. Hora do óbito: três e trinta. De volta à realidade. Diz o dragão: que bom que você voltou. Réplica: também acho.

Definições III

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Gato é quando um ser vivo se destaca na multidão de seres vivos e não havendo outro termo melhor para usar, você diz: é um gato. Habitualmente, andam sobre as quatro patas, embora alguns - os mais perigosos - andem sobre duas patas apenas. Existem em diversas configurações, angorá, persa, siamês, de Alice, egípcio, etc. Alguns mais imaginários que os outros. Todos muito arredios. Três lições sobre gatos: não é você que se aproxima do gato, é o gato que aproxima-se de você; o miado de chamado de hoje pode ser o miado de repulsa de amanhã; todos roubam alguma coisa sua - pode ser um pé-de-meia, pode ser seu coração.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Assim falou Saramago...


Vivo, vivíssimo

Intento ser, à minha maneira, um estóico prático, mas a indiferença como condição de felicidade nunca teve lugar na minha vida, e se é certo que procuro obstinadamente o sossego do espírito, certo é também que não me libertei nem pretendo libertar-me das paixões. Trato de habituar-me sem excessivo dramatismo à ideia de que o corpo não só é finível, como de certo modo é já, em cada momento, finito. Que importância tem isso, porém, se cada gesto, cada palavra, cada emoção são capazes de negar, também em cada momento, essa finitude? Em verdade, sinto-me vivo, vivíssimo, quando, por uma razão ou por outra, tenho de falar da morte…

n'O Caderno de Saramago em 18/11/2008

PS.: Ele está chegando no final-de-semana.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

dispensa maiores comentários...

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Interesse
(Suely Mesquita e Pedro Luís)

Acende uma vela pra Deus
outra pro diabo
agradeço,
você não se interessa mais por mim

Posso passear no bosque
seu lobo não vem mais atrás
agradeço,
você não se interessa mais por mim

Me solta, me deixa, me larga,
tenho mais o que fazer.
não posso ficar nessa de esperar,
nem posso ficar nessa de querer.

O gato acha o rato muito interessante
a cobra acha o sapo muito interessante
agradeço,
você não se interessa mais por mim

Sai de cima, deixa disso de promessa
ão me prende aqui
que eu tô com pressa

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Poema dentuço








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Poema dentuço
(para o Manuel)

Minha cama não tem cabeceira
Só pelo de gato
e poeira
Se tivesse, estaria lá o Bandeira
toda noite a dizer:
Estrela da vida inteira

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Poema de sete faces


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima,
não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade
(Alguma Poesia, 1930)