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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Epílogo

Eu quis um dia como Schumann, compor
Um carnaval todo subjetivo:
Um carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior

Quando o acabei - a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta mortacor
Da senilidade e da amargura...
O meu carnaval sem nenhuma alegria!...

Manuel Bandeira, 1919
(Carnaval, in Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira, 1993)

Manuel Bandeira por
Demétrio Alburqueque Silva Filho

quarta-feira, 1 de julho de 2009

O último poema

Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
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Manuel Bandeira
(Libertinagem)

Improviso

Para Odylo e Nazareth
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Por ser quem era e filho de quem era,
Eu queria-lhe bem. Pouco eu sabia
Do que no coração ele trazia.
Era discreto. A sua primavera
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Não gritava. Tranquilo em sua espera,
Não se apressava. O que é que pretendia?
Fazer o bem aos outros, e o fazia:
Pelos que amava tudo, e a vida, dera.
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E a noite veio em que, quando contente
Findava ele o seu dia, a sorte fera
Lhe surgiu de improviso pela frente.
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E o que pelos que amava a vida dera,
Pela que a amava a deu valentemente,
Por ser quem era e filho de quem era.
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Manuel Bandeira
(Estrela da Tarde)

sexta-feira, 12 de junho de 2009

12 de junho (Segunda Paráfrase do Beco)

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Querido Manuel,
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Que importa o dinheiro, o prestígio, a viagem, o piano, até o gato?
- Cadê o namorado que eu pedi no ano passado?


terça-feira, 19 de maio de 2009

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da
.............................[Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
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Manuel Bandeira
(Libertinagem, Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira, 35ªed)
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segunda-feira, 4 de maio de 2009

Estrela da Manhã

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
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Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte
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Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã
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Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário
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Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos
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Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
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Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
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Depois comigo
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Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e te direi ccccccccccccccccccccccccccccccccc[coisas de uma ternura tão simples
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Que tu desfalecerás
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Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última beleza
Eu quero a estrela da manhã.
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Manuel Bandeira
(Estrela da Manhã - Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
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Mandou chamar um médico:
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- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
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....................................................................................
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- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
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- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
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Manuel Bandeira
(Libertinagem - Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Lua Nova

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Meu novo quarto
Virado para o nascente:
Meu quarto, de novo a cavaleiro de entrada da barra.
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Depois de dez anos de pátio
Volto a tomar conhecimento da aurora.
Volto a banhar meus olhos no mênstruo incruento das madrugadas.
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Todas as manhãs o aeroporto de frente me dá lições de partir.
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Hei de aprender com ele
A partir de uma vez
- Sem medo,
Sem remorso,
Sem saudade.

Não pensem que estou aguardando a lua cheia
- Esse sol da demência
Vaga e noctâmbula
O que mais eu quero,
O de que preciso
É de lua nova.
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Manuel Bandeira
(Rio de Janeiro, 1953)
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domingo, 18 de janeiro de 2009

Belo belo


Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação do voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quere rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Manuel Bandeira
Petrópolis, fevereiro de 1947
(in Belo belo, Estrela da Vida Inteira)

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Poema dentuço








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Poema dentuço
(para o Manuel)

Minha cama não tem cabeceira
Só pelo de gato
e poeira
Se tivesse, estaria lá o Bandeira
toda noite a dizer:
Estrela da vida inteira