segunda-feira, 25 de maio de 2009

Água Perrier

Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês.
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Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.
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Só proponho
alimentar seu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:
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Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier
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Antonio Cícero
(Guardar, Ed. Record, 2008)

domingo, 24 de maio de 2009

Ouvindo...


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Peixes
(Mariana Aydar)
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Peixes são iguais a pássaros
Só que cantam sem ruído
Som que não vai ser ouvido
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Voam águias pelas águas
Nadadeiras como asas
Que deslizam entre nuvens
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Peixes, pássaros, pessoas
Nos aquários, nas gaiolas,
Pelas salas e sacadas
Afogados no destino
De morrer como decoração das casas
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Nós vivemos como peixes
Com a voz que nós calamos
Com essa paz que não achamos
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Nós morremos como peixes
Com amor que não vivemos
Satisfeitos? mais ou menos
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Todas as iscas que mordemos
Os anzóis atravessados
Nossos gritos abafados

As sem-razões do Amor

Eu te amo porque te amo.
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
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Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
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Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
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Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor
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Carlos Drummond de Andrade
(Corpo, in Poesia Completa, Ed. Nova aguilar, 2006)
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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Terapia

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Você pede que eu te explique
em termo técnicos
sem recalque e aplique
o que você mesmo não entende
sua alma, seu ser, seu Id,
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E que enumere seus defeitos
e relembre suas qualidades
Como se eu pudesse por tudo
num balancete tipo fim de expediente
de qualquer supermercado
...
Prefiro esperar somente
a te dizer verdades provisórias que
só durem o instante presente
Que seja você, liberto, a me dizer,
quem é, o que sente e pretende

Ouvindo...



Esse seu olhar
(Tom Jobim)
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Esse seu olhar
Quando encontra o meu
Fala de umas coisas
Que eu nem posso acreditar
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Doce é sonhar
É pensar que você
Gosta de mim
Como eu de você
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Mas a ilusão
Quando se desfaz
Dói no coração
De quem sonhou
Sonhou demais
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Ah! se eu pudesse entender
O que dizem os seus olhos

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Ouvindo...


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Fogo e Gasolina
(Pedro Luís e Carlos Rennó)
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Você é um avião e eu sou um edifício
Eu sou um abrigo e você é um missil
Eu sou a mata e você é a moto-serra
Eu sou um terremoto e você a Terra
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O nosso jogo é perigoso, menino
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina
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Você é o fósforo e eu sou o pavio
Você é um torpedo e eu sou um navio
Você é o trem e eu sou o trilho
Eu sou o dedo e você é o meu gatilho
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O nosso jogo é perigoso, menino
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gás
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Eu sou a veia e você é a agulha
Eu sou o gás e você é a fagulha
Eu sou o fogo e você é a gasolina
Eu sou a pólvora e você a mina
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O nosso jogo perigoso combina
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina

terça-feira, 19 de maio de 2009

Frase do dia, digo, da noite...

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"Se não esperar o inesperado
não se descobrirá,
sendo [este] indescobrível e inacessível"
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(Heráclito de Éfeso)

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da
.............................[Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
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Manuel Bandeira
(Libertinagem, Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira, 35ªed)
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domingo, 17 de maio de 2009

Cantada

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Entro na livraria - qualquer uma, não importa. Procuro um romance. Cansei dos contos, novelas e crônicas. Cansei sobretudo da poesia. Só quero um romance - simples assim. Oferece ajuda o vendedor. Só procuro um romance. Quer me indicar um? Claro, senhor. Que tipo de romance? Não quero romances históricos, gigantescos, impossíveis, só lutas, tragédias e mortes, amores transatlânticos, sem chance de final feliz. Não quero romances urbanos, dos anos oitenta, deprimidos, drogados, cheios de vícios e poetas suicidas - toda a esperança queimada na ponta do cigarro que cai pela janela do sétimo andar. Não quero romances juvenis - já passei dessa idade - cheios de promessas de amor, cenas passionais no elevador, sexo e paixão - muita paixão - que não resiste nem até o fim do capítulo dois. Não quero romances fantásticos, com seus personagens bizarros, situações improváveis, universos paralelos e realidades imaginárias. Isso não existe. E por favor, não quero esses romances contemporâneos. Sabe quais? Fragmentados, esquizofrênicos, cheios de si na sua infinita (falta de) criatividade, como se a coisa mais interessante do mundo fosse ir e vir sem sair do lugar. Dispenso essa coleção de romances fracassados. O que sobrou na prateleira? Ficou vazia, senhor. Ah, tá. Esquece. Quer saber, pare de me chamar de senhor, me dê logo um beijo. Preciso começar a escrever meu próprio romance.

Ouvindo...


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Acontecimentos
(Antonio Cicero & Marina Lima)
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Eu espero
Acontecimentos
Só que quando anoitece
É festa no outro apartamento
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Todo amor
Vale o quanto brilha
E aí
O meu ainda brilhava
Brilho de jóia e de fantasia
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O que que há com nós dois, amor?
Me responda depois
Me diz por onde você me prende
Por onde foge
E o que pretende de mim
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Era fácil
Nem dá pra esquecer
E eu nem sabia
Como era feliz de ter você
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Como pôde
Queimar nosso filme
Um longe do outro
Morrendo de tédio e de ciúmes
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O que que há com nós dois amor?
Me responda depois
Me diz por onde você me prende
Por onde foge
E o que pretende de mim

Eu vi o rei chegar

Eu vi o rei chegar
Eu vi o rei chegar
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Um rei assim
Que não escuta bem
Que adora luz
Mas não vê ninguém
Prefere olhar
O horizonte, o céu
Longe daqui é tudo seu
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Eu vi o rei chegar
Eu vi o rei chegar
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Seu sangue azul
Ninguém diz de onde vem
De que sertão
De que mar, que além
E para nós
Ele jamais se abriu
Só uma vez
Quando partiu
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Eu vi o rei chegar
Eu vi o rei chegar
.
Um rei assim
Cultiva solidão
Sombria flor
No coração
E claro é
Que o pêndulo do amor
Às vezes vai
Até a dor
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Eu vi o rei chegar
Eu vi o rei chegar
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Devo dizer
Que eu não sofri demais
Mas devo dizer
Que eu acordei
Mesmo sem ser
Tudo que eu imaginei
Devo dizer
Que eu o amei
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Eu vi o rei chegar
Eu vi o rei chegar

Antonio Cicero
(Guardar, Ed.Record)

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Ouvindo...


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Preciso dizer que te amo
(Cazuza, Bebel Gilberto e Dé)
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Quando a gente conversa
Contando casos, besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo, que medo
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É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É, eu preciso dizer que eu te amo tanto
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E até o tempo passa arrastado
Só pra eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser teu amigo
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É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
É, eu preciso dizer que eu te amo tanto
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Eu já nem sei se eu tô misturando
Eu perco o sono
Lembrando em cada riso teu
Qualquer bandeira
Fechando e abrindo a geladeira
A noite inteira
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Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo tanto

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Surto

Hoje, no meio da tarde, tive um surto de felicidade. Sensação irresistível de que tudo já deu certo. Que não há tristezas, não há mágoas, não há dúvidas - tudo passou como se nunca tivesse existido. Só há felicidade. Não entendo de onde veio isso. No ipod, Maria Bethania cantava tão triste a Modinha. Vai triste canção, sai do meu peito e semeia a emoção, que chora dentro do meu coração. E foi-se! Vontade de beijar as pessoas na rua e rir de nada (como se para rir precisasse haver motivo). Desço do ônibus. Chego em casa. Jogo o gato para cima. Abro um livro ao acaso. Mário Quintana me diz (leio e rio):
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Poeminha Sentimental
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O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vem pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega e vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
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(Preparativos de Viagem, in Poesia Completa, Ed. Nova Aguilar, 2005)
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Por que

Amor meu, minhas penas, meu delírio
aonde quer que vás, irá contigo
meu corpo, mais que um corpo, irá um'alma
sabendo embora ser perdido intento
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o de cingir-te forte de tal modo
que, desde então se misturando as partes
resultaria o mais perfeito andrógino
nunca citado em lendas e cimélios.
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Amor meu, punhal meu, fera miragem
consubstanciada em vulto feminino,
por que não libertas do teu jugo,
por que não me convertes em rochedo,
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por que não me eliminas do sistema
dos humanos prostrados, miseráveis,
por que preferes doer-me como chaga
a fazer dessa chaga meu prazer?
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Carlos Drummond de Andrade
(Farewell, 1996)
(repostando porque é lindo e necessário)

Ouvindo...


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Bandeira
(Zeca Baleiro)
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Eu não quero ver você cuspindo ódio
Eu não quero ver você fumando ópio, pra sarar a dor
Eu não quero ver você chorar veneno
Não quero beber o teu café pequeno
Eu não quero isso seja lá o que isso for
Eu não quero aquele
Eu não quero aquilo
Peixe na boca do crocodilo
Braço da Vênus de Milo acenando tchau
.
Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro, se bem me lembro
O melhor futuro este hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo
Eu não quero ter o tejo escorrendo das mãos
Quero a Guanabara, quero o Rio Nilo
Quero tudo ter, estrela, flor, estilo
Tua língua em meu mamilo água e sal
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Nada tenho vez em quando tudo
Tudo quero mais ou menos quanto
Vida vida, noves fora, zero
Quero viver, quero ouvir, quero ver
Se é assim quero sim, acho que vim pra te ver