quarta-feira, 13 de maio de 2009

Surto

Hoje, no meio da tarde, tive um surto de felicidade. Sensação irresistível de que tudo já deu certo. Que não há tristezas, não há mágoas, não há dúvidas - tudo passou como se nunca tivesse existido. Só há felicidade. Não entendo de onde veio isso. No ipod, Maria Bethania cantava tão triste a Modinha. Vai triste canção, sai do meu peito e semeia a emoção, que chora dentro do meu coração. E foi-se! Vontade de beijar as pessoas na rua e rir de nada (como se para rir precisasse haver motivo). Desço do ônibus. Chego em casa. Jogo o gato para cima. Abro um livro ao acaso. Mário Quintana me diz (leio e rio):
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Poeminha Sentimental
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O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vem pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega e vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.
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(Preparativos de Viagem, in Poesia Completa, Ed. Nova Aguilar, 2005)
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Por que

Amor meu, minhas penas, meu delírio
aonde quer que vás, irá contigo
meu corpo, mais que um corpo, irá um'alma
sabendo embora ser perdido intento
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o de cingir-te forte de tal modo
que, desde então se misturando as partes
resultaria o mais perfeito andrógino
nunca citado em lendas e cimélios.
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Amor meu, punhal meu, fera miragem
consubstanciada em vulto feminino,
por que não libertas do teu jugo,
por que não me convertes em rochedo,
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por que não me eliminas do sistema
dos humanos prostrados, miseráveis,
por que preferes doer-me como chaga
a fazer dessa chaga meu prazer?
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Carlos Drummond de Andrade
(Farewell, 1996)
(repostando porque é lindo e necessário)

Ouvindo...


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Bandeira
(Zeca Baleiro)
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Eu não quero ver você cuspindo ódio
Eu não quero ver você fumando ópio, pra sarar a dor
Eu não quero ver você chorar veneno
Não quero beber o teu café pequeno
Eu não quero isso seja lá o que isso for
Eu não quero aquele
Eu não quero aquilo
Peixe na boca do crocodilo
Braço da Vênus de Milo acenando tchau
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Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro, se bem me lembro
O melhor futuro este hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo
Eu não quero ter o tejo escorrendo das mãos
Quero a Guanabara, quero o Rio Nilo
Quero tudo ter, estrela, flor, estilo
Tua língua em meu mamilo água e sal
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Nada tenho vez em quando tudo
Tudo quero mais ou menos quanto
Vida vida, noves fora, zero
Quero viver, quero ouvir, quero ver
Se é assim quero sim, acho que vim pra te ver

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Definições XIV (em forma de soneto)

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Terremoto é quando a terra treme
porque seus corpos unidos gemem
e suas bocas sentem o que diretamente
não podem dizer-se por puro temor
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Tremor grosseiro, cresce a cada instante
ligeiro, forte, inconsequente
tentando parecer inutilmente
outra coisa qualquer, que não ardor
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Perdidos no caos, proscritos,
seguem em busca de um caminho
onde imaginam não deve haver dor
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Caminho que não existe se entre
sombras e ruínas de um abalo sísmico
não forem capazes de reconhecer o amor

Ouvindo...

domingo, 10 de maio de 2009

Horóscopo de Domingo III


Ouvindo...


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Só tinha de ser com você
(Tom Jobim & Aloysio de Oliveira)
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É, só eu sei quanto amor eu guardei
Sem saber que era só prá você
É, só tinha de ser com você
Havia de ser prá você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que o mundo não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu prá você
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu prá você
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É, você que é feito de azul
Me deixa morar neste azul
Me deixa encontrar minha paz
Você que é bonito de mais
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você
E você sempre foi só de mim
Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim

sábado, 9 de maio de 2009

Frase do dia, digo, da noite. Não, da madrugada mesmo...

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"Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?"

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Vinícius de Moraes
(A hora íntima, Rio 1950)
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PS.: Gostei muito de te ver, Leãozinho...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Salário minimo

acordei
com uma pequena
saudade
mínima
tipo saudade salário mínimo
que só dura
o mínimo
e nem dá
para pagar
as contas do mês
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qualquer hora acaba
...

e quando acabar
de vez?

Ouvindo...


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Don't wait too long
(Madeleine Peyroux, Jesse Haris, Larry Klein)
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You can cry a million tears
You can wait a million years
If you think that time will change your ways
Don't wait too long
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When your morning turns to night
Who'll be loving you by candlelight
If you think that time will change your ways
Don't wait too long
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Maybe I got a lot to learn
Time can slip away
Sometimes you got to lose it all
Before you find your way
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Take a chance, play your part
Make romance, it might break your heart.
But if you think that time will change your ways
Don't wait too long
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It may rain, it may shine
Love will age like fine red wine
But if you think that time will change your ways
Don't wait too long
.
Maybe you and I got a lot to learn
Don't waste another day
Maybe you got to lose it all
Before you find your way
.
Take a chance, play your part
Make romance, it might break your heart
But if you think that time will change your ways
Don't wait too long

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Para o moço taurino da boca grande...

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... Feliz Aniversário!

Soneto de Aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
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Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
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Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
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E eu te direi: amigo meu, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Vinícius de Moraes
(Rio, 1942 - Livro dos Sonetos)

Gestação

Poema de ocasião em verso único despontuado surgido sob efeito do álcool da morfina da solidão da lembrança do sorriso descansado - não sobrará espaço nem inspiração que vá além do título gestado inspirado - este poema recém-nato morre aqui.

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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Este livro

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

Ana C.
(in Antologia Poética)



terça-feira, 5 de maio de 2009

O Frenesi de Abril

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Parecia que Abril ia ser calmo. Muito calmo. Terminava de ler Foucault. O Poder psiquiátrico. Estava bem feliz com meus malucos. Ou, como diriam os amigos, teria encontrado meu lugar entre eles. Até Freud adentrou minha biblioteca em grande estilo, em vinte e dois volumes. Estudos sobre a Histeria. Tentando entender um pouco melhor os histéricos do ambulatório. Ou, como diriam os amigos, me entender. Futuro certo, emprego, dinheiro entrando. Tudo ia bem. Até passei no Baratos e comprei mais uns livros ótimos a preço de banana-maçã. A tragédia brasileira e Um crime delicado, do Sérgio Sant'anna, e Mongólia do Bernardo Carvalho. De quebra ainda achei um exemplar novo do livro de poesias do Borges que faltava na minha estante: O fazedor, por módicos R$12.00 (uma ofensa...). Dia dois, recebo por e-mail a notícia que esperei por quase dois anos. Não esperava mais que fosse acontecer. A possibilidade de passar um tempo fora do país, nas melhores condições, para estudar e descobrir coisas com as quais eu sonhava. Não sei se ainda sonho. Não dava tempo para pensar - precisava dizer sim ou não rápido. Disse sim, sem saber se era sim mesmo. Melhor desistir depois se for o caso. No meio da confusão, só pude recorrer a Clarice. Lispector. Água viva. Um livro esquizofrênico. Aliás, nunca me esquecerei do José Carlos, um paciente esquizofrênico que me pediu um livro de Clarice há um tempo atrás. Dei a ele A paixão segundo GH. Ele adorou. Inclusive me explicou umas partes que eu não havia entendido. Fora da psiquiatria o mundo ficou meio sem graça. Continuei trabalhando em outros lugares. Mas não é a mesma coisa. A psiquiatria renovou minha humanidade e tenho medo de perdê-la de novo. Mais tempo livre, uma tese para escrever, mais tempo livre para ler. O filho da mãe, de Bernardo Carvalho, foi uma boa leitura, embora continue a preferir outros livros do autor. O Frenesi Polissilábico, de Nick Hornby - sobre o qual já falei aqui. Passei de novo no sebo. Achei Corpo Presente, do Cuenca e o livro de poesias do Gonçalo M. Tavares, "1". O primeiro não li. O segundo não gostei, fiquei meio decepcionado. Vai ver eu estava chateado. Depois começaram os feriados e acabei disperso. Tentando pensar na tese que não saía. E na viagem - se eu iria. Preferi deixar rolar e ver o que aconteceria. Lá pelo dia vinte, conheci alguém especial, fiquei balançado. Obviamente, lendo poesia. Livro dos Sonetos, do Vinícius. Um pouco de Libertinagem não faz mal a ninguém. E Muitas Vozes, embora só uma eu quisesse de fato ouvir. Confesso, foi bom demais estar com você (que o digam os vizinhos...). Mesmo sabendo que você não queria nada sério agora. Eu te disse: eu também não. Mas sabe como é... peixes, escorpião - só tem emoção aqui. A razão fica de fora. Não fiquei chateado, decepcionado, nada disso - sem neuras. A propósito, Feliz Aniversário adiantado, caso não consiga falar com você no dia. Claro que vou tentar. E foi a astrologia que me levou ao último livro do mês: Triângulo das Águas, do Caio Fernando Abreu. De longe, a melhor leitura do mês, catártico, me emocionou profundamente. Li durante a viagem, no dia primeiro de maio. Merecedor do Prêmio Frenesi de Abril. Acabou o mês. Não acabaram os livros. Não é a Biblioteca de Babel. Mas pode ser que se torne infinita.
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Ouvindo...


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I'm a fool to want you
(Frank Sinatra, Jack Wolf, Joel S. Herron)
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I'm a fool to want you
I'm a fool to want you
To want a love that can't be true
A love that's there for others too
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I'm a fool to hold you
Such a fool to hold you
To seek a kiss not mine alone
To share a kiss that Devil has known
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Time and time again I said I'd leave you
Time and time again I went away
But then would come the time when I would need you
And once again these words I had to say
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I'm a fool to want you
Pity me, I need you
I know it's wrong, it must be wrong
But right or wrong
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I can't get along
Without you

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Estrela da Manhã

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
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Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte
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Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã
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Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário
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Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos
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Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
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Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
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Depois comigo
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Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e te direi ccccccccccccccccccccccccccccccccc[coisas de uma ternura tão simples
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Que tu desfalecerás
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Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última beleza
Eu quero a estrela da manhã.
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Manuel Bandeira
(Estrela da Manhã - Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira)