segunda-feira, 11 de maio de 2009

Definições XIV (em forma de soneto)

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Terremoto é quando a terra treme
porque seus corpos unidos gemem
e suas bocas sentem o que diretamente
não podem dizer-se por puro temor
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Tremor grosseiro, cresce a cada instante
ligeiro, forte, inconsequente
tentando parecer inutilmente
outra coisa qualquer, que não ardor
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Perdidos no caos, proscritos,
seguem em busca de um caminho
onde imaginam não deve haver dor
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Caminho que não existe se entre
sombras e ruínas de um abalo sísmico
não forem capazes de reconhecer o amor

Ouvindo...

domingo, 10 de maio de 2009

Horóscopo de Domingo III


Ouvindo...


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Só tinha de ser com você
(Tom Jobim & Aloysio de Oliveira)
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É, só eu sei quanto amor eu guardei
Sem saber que era só prá você
É, só tinha de ser com você
Havia de ser prá você
Senão era mais uma dor
Senão não seria o amor
Aquele que o mundo não vê
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu prá você
O amor que chegou para dar
O que ninguém deu prá você
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É, você que é feito de azul
Me deixa morar neste azul
Me deixa encontrar minha paz
Você que é bonito de mais
Se ao menos pudesse saber
Que eu sempre fui só de você
E você sempre foi só de mim
Que eu sempre fui só de você
Você sempre foi só de mim

sábado, 9 de maio de 2009

Frase do dia, digo, da noite. Não, da madrugada mesmo...

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"Quem pagará o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?"

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Vinícius de Moraes
(A hora íntima, Rio 1950)
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PS.: Gostei muito de te ver, Leãozinho...

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Salário minimo

acordei
com uma pequena
saudade
mínima
tipo saudade salário mínimo
que só dura
o mínimo
e nem dá
para pagar
as contas do mês
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qualquer hora acaba
...

e quando acabar
de vez?

Ouvindo...


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Don't wait too long
(Madeleine Peyroux, Jesse Haris, Larry Klein)
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You can cry a million tears
You can wait a million years
If you think that time will change your ways
Don't wait too long
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When your morning turns to night
Who'll be loving you by candlelight
If you think that time will change your ways
Don't wait too long
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Maybe I got a lot to learn
Time can slip away
Sometimes you got to lose it all
Before you find your way
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Take a chance, play your part
Make romance, it might break your heart.
But if you think that time will change your ways
Don't wait too long
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It may rain, it may shine
Love will age like fine red wine
But if you think that time will change your ways
Don't wait too long
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Maybe you and I got a lot to learn
Don't waste another day
Maybe you got to lose it all
Before you find your way
.
Take a chance, play your part
Make romance, it might break your heart
But if you think that time will change your ways
Don't wait too long

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Para o moço taurino da boca grande...

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... Feliz Aniversário!

Soneto de Aniversário

Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.
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Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.
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Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.
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E eu te direi: amigo meu, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Vinícius de Moraes
(Rio, 1942 - Livro dos Sonetos)

Gestação

Poema de ocasião em verso único despontuado surgido sob efeito do álcool da morfina da solidão da lembrança do sorriso descansado - não sobrará espaço nem inspiração que vá além do título gestado inspirado - este poema recém-nato morre aqui.

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quarta-feira, 6 de maio de 2009

Este livro

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.

Ana C.
(in Antologia Poética)



terça-feira, 5 de maio de 2009

O Frenesi de Abril

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Parecia que Abril ia ser calmo. Muito calmo. Terminava de ler Foucault. O Poder psiquiátrico. Estava bem feliz com meus malucos. Ou, como diriam os amigos, teria encontrado meu lugar entre eles. Até Freud adentrou minha biblioteca em grande estilo, em vinte e dois volumes. Estudos sobre a Histeria. Tentando entender um pouco melhor os histéricos do ambulatório. Ou, como diriam os amigos, me entender. Futuro certo, emprego, dinheiro entrando. Tudo ia bem. Até passei no Baratos e comprei mais uns livros ótimos a preço de banana-maçã. A tragédia brasileira e Um crime delicado, do Sérgio Sant'anna, e Mongólia do Bernardo Carvalho. De quebra ainda achei um exemplar novo do livro de poesias do Borges que faltava na minha estante: O fazedor, por módicos R$12.00 (uma ofensa...). Dia dois, recebo por e-mail a notícia que esperei por quase dois anos. Não esperava mais que fosse acontecer. A possibilidade de passar um tempo fora do país, nas melhores condições, para estudar e descobrir coisas com as quais eu sonhava. Não sei se ainda sonho. Não dava tempo para pensar - precisava dizer sim ou não rápido. Disse sim, sem saber se era sim mesmo. Melhor desistir depois se for o caso. No meio da confusão, só pude recorrer a Clarice. Lispector. Água viva. Um livro esquizofrênico. Aliás, nunca me esquecerei do José Carlos, um paciente esquizofrênico que me pediu um livro de Clarice há um tempo atrás. Dei a ele A paixão segundo GH. Ele adorou. Inclusive me explicou umas partes que eu não havia entendido. Fora da psiquiatria o mundo ficou meio sem graça. Continuei trabalhando em outros lugares. Mas não é a mesma coisa. A psiquiatria renovou minha humanidade e tenho medo de perdê-la de novo. Mais tempo livre, uma tese para escrever, mais tempo livre para ler. O filho da mãe, de Bernardo Carvalho, foi uma boa leitura, embora continue a preferir outros livros do autor. O Frenesi Polissilábico, de Nick Hornby - sobre o qual já falei aqui. Passei de novo no sebo. Achei Corpo Presente, do Cuenca e o livro de poesias do Gonçalo M. Tavares, "1". O primeiro não li. O segundo não gostei, fiquei meio decepcionado. Vai ver eu estava chateado. Depois começaram os feriados e acabei disperso. Tentando pensar na tese que não saía. E na viagem - se eu iria. Preferi deixar rolar e ver o que aconteceria. Lá pelo dia vinte, conheci alguém especial, fiquei balançado. Obviamente, lendo poesia. Livro dos Sonetos, do Vinícius. Um pouco de Libertinagem não faz mal a ninguém. E Muitas Vozes, embora só uma eu quisesse de fato ouvir. Confesso, foi bom demais estar com você (que o digam os vizinhos...). Mesmo sabendo que você não queria nada sério agora. Eu te disse: eu também não. Mas sabe como é... peixes, escorpião - só tem emoção aqui. A razão fica de fora. Não fiquei chateado, decepcionado, nada disso - sem neuras. A propósito, Feliz Aniversário adiantado, caso não consiga falar com você no dia. Claro que vou tentar. E foi a astrologia que me levou ao último livro do mês: Triângulo das Águas, do Caio Fernando Abreu. De longe, a melhor leitura do mês, catártico, me emocionou profundamente. Li durante a viagem, no dia primeiro de maio. Merecedor do Prêmio Frenesi de Abril. Acabou o mês. Não acabaram os livros. Não é a Biblioteca de Babel. Mas pode ser que se torne infinita.
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Ouvindo...


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I'm a fool to want you
(Frank Sinatra, Jack Wolf, Joel S. Herron)
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I'm a fool to want you
I'm a fool to want you
To want a love that can't be true
A love that's there for others too
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I'm a fool to hold you
Such a fool to hold you
To seek a kiss not mine alone
To share a kiss that Devil has known
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Time and time again I said I'd leave you
Time and time again I went away
But then would come the time when I would need you
And once again these words I had to say
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I'm a fool to want you
Pity me, I need you
I know it's wrong, it must be wrong
But right or wrong
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I can't get along
Without you

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Estrela da Manhã

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
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Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte
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Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa?
Eu quero a estrela da manhã
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Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário
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Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos
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Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras
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Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto
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Depois comigo
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Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas comerei terra e te direi ccccccccccccccccccccccccccccccccc[coisas de uma ternura tão simples
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Que tu desfalecerás
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Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última beleza
Eu quero a estrela da manhã.
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Manuel Bandeira
(Estrela da Manhã - Estrela da Vida Inteira, Ed. Nova Fronteira)

Frase do dia, digo, da noite...

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"- Abraça tua loucura antes que seja tarde demais."
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Caio Fernando Abreu
(O Marinheiro, Triângulo das Águas, Ed. Agir, 2008)

Poética

De manhã escureço
De dia tardo
De noite anoiteço
De noite ardo.
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A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.
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Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem
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Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
- Meu tempo é quando
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..................Vinícius de Moraes
.........................-Nova York, 1950 -
............(Livro de Sonetos, Ed. Cia. das Letras, 2009)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

De manhã...

quando acordo assustado, ainda não sei o que de fato ocorreu, o que de fato foi sonhado. Viro e vejo que acordei sozinho. A memória de que você me disse "adeus" retorna. Essa é uma palavra muito forte, principalmente para se dizer na noite escura, após tanto afeto, após tanto prazer. Após, com tanta dificuldade, dizer o que você queria ouvir: estou apaixonado. Diga até qualquer hora. É melhor e mais verdadeiro. Lembre-se da música. Vai saber? "Só porque disse que não me quer, não quer dizer que não vai querer..." Queria tanto que você entendesse que eu vivo o momento. Com toda a intensidade do mundo eu vivo o momento. Mais que tudo eu preciso viver o momento. Porque não sei se continuarei a respirar no instante seguinte. Não, não é um tango argentino. Mas poderia ser. Eu sou um ser que ama intensamente, que vive intensamente, que não tem medo de sofrer e por isso mesmo não tem medo de amar imensamente. Eu me ofereço inteiro e peço pouco em troca - foi isso o que eu quis dizer e não consegui explicar. E arco com as conseqüências de ser assim - elas não são poucas, você sabe. Pode me chamar de inconsequente. Mas é tão melhor assim que viver uma vida cinza. Por isso talvez eu ame tanto os poetas. Eu acredito em Vinícius. Eu acredito em Gullar. "Só agora sei que existe a eternidade: é a duração finita da minha precariedade". Eu queria que você pudesse viver também só o momento. Sem preocupações. Sem expectativas. Sem ter medo. Só o agora, enquanto for bom. Deixar que o futuro fosse construído passo-a-passo, como uma sucessão de instantes felizes que podem se prolongar - únicos - indefinidamente. Quase uma utopia: um para sempre feito a cada dia. A medida da eternidade seria a medida do nosso prazer. Enquanto ele durasse. E quando acabasse (se um dia acabasse), teríamos certeza de que se não foi eterno (posto que era chama), foi infinito enquanto durou. E diga o que quiser, mas você sabe - tão bem quanto eu - que nosso prazer ainda não terminou.