segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Fuga aérea

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o que fazer
quando o ar acabar?
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- esqueça isso.
eu pergunto:
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o que fazer
enquanto não acaba o ar?

domingo, 18 de janeiro de 2009

Belo belo


Belo belo minha bela
Tenho tudo que não quero
Não tenho nada que quero
Não quero óculos nem tosse
Nem obrigação do voto
Quero quero
Quero a solidão dos píncaros
A água da fonte escondida
A rosa que floresceu
Sobre a escarpa inacessível
A luz da primeira estrela
Piscando lusco-fusco
Quero quero
Quero dar a volta ao mundo
Só num navio de vela
Quere rever Pernambuco
Quero ver Bagdá e Cusco
Quero quero
Quero o moreno de Estela
Quero a brancura de Elisa
Quero a saliva de Bela
Quero as sardas de Adalgisa
Quero quero tanta coisa
Belo belo
Mas basta de lero-lero
Vida noves fora zero.

Manuel Bandeira
Petrópolis, fevereiro de 1947
(in Belo belo, Estrela da Vida Inteira)

sábado, 17 de janeiro de 2009

A guerra, os guerreiros e a volta de Jack


Os bombardeios continuam e, ao que parece, ainda há muito o que se falar sobre o conflito Israel x Palestina. Aliás, só se fala nisso. Até o porteiro aqui do prédio tem opinião formada sobre o assunto. Eu não tenho. Enquanto penso no assunto, aproveito a estreia (sem acento) da nova temporada de 24. Yep... Jack Bauer - o terror dos defensores dos direitos humanos - está de volta. A pergunta que não quer calar: haverá espaço para para Jack nos USA pós-Bush? Jack é cria do 9-11, fez sucesso no momento em que o combate ao terror era a tônica de uma nação. E para tanto, todos os métodos eram válidos. Deu no que deu. Ao contrário de Jack, que passou seis temporadas salvando os USA (e o mundo...) de ameaças terroristas, os Real Jacks afundaram-se numa guerra de propósitos e resultados questionáveis. Se os fins justificavam os meios, o que fazer quando não se conseguiu atingi-los - mesmo utilizando-se de todos os meios? Não é coincidência que esta sétima temporada comece com Jack sendo investigado pelo Senado Americano. O crime? Uso de violência excessiva contra suspeitos - vulgarmente conhecido como tortura. Mas não se anime, não dura muito tempo. Rapidamente Jack é convocado para aplicar seus métodos em mais alguns suspeitos. Assim como o conflito Israel-Palestina, Jack ainda tem vida longa...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dois choros


Choros no.5

choro número um
de fome e medo
choro número dois
de raiva e fúria
choro número três
de angústia e dúvida
choro número quatro
de uma suposta alegria
choro número cinco
de espera
chora pelo que sequer aconteceu?
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Chorinho brasileiro

chora hoje
o choro triste
o que restou
chora hoje
o que sobra
talvez não seja
suficiente
para chorar
um novo choro
amanhã

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Definições VIII

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Inspiração é quando a luz acende, a conversa rende e o poeta entende o que faltava para completar o poema. Inspiração não frequentou (sem trema) escola de trânsito. Quando vem, é atropelando. Quando vai... bem, quando vai... foi.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O Universo

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O Universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Alberto Caeiro
01-10-1917
(in Ficções do Interlúdio)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Abismo

Todos me indicam o caminho contrário.

Bebi na música
E fechei-me a sós com o sonho.

Quando acordei
Haviam destruído os gramofones
E a treva anterior envolvia a cidade.

O mar passava nos braços
Uma pulseira de mortos.

Abri um pé de magnólia
Dando sombra ao Minotauro.
Desde então
Um peito é zona de guerra,
Fiz um eixo com as estrelas.

A poesia em pára-quedas
Tanto desce como sobe.

Murilo Mendes
(As Metamorfoses)

Damascos recheados na calda de flor de Laranjeira

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Comece em uma tarde de tédio. Reúna força, coloque uma roupa e chame o elevador. Siga em busca dos damascos, pelo caminho mais longo. Passe pela livraria, pare, olhe bastante e - se não for comprometer a receita - compre um ou dois livros. E tome um expresso, duplo. Mas não se esqueça dos damascos. Passe pela praia. É sempre bom e nunca se sabe quem pode aparecer. Resista ao sorvete de amarena. Siga o caminho das pedras que vai dar no sebo. Dê mais uma olhada (não só nos livros). Leve o que der. Chegando ao estabelecimento, escolha bem o vendedor e peça meio quilo de damascos turcos graúdos - os melhores que houver. Junte cem gramas de amêndoas inteiras sem casca e sem pele. Complete com um vidro de água de flor de laranjeira. Se não houver açúcar em casa, leve um quilo também. E vai precisar do suco de uma laranja. Feitas as compras, retorne para casa lendo um dos novos livros. Tropece em algumas pessoas interessantes propositadamente. Ao chegar, coloque no fogo um copo de água, o suco da laranja, três colheres de água de flor de laranjeira e uma xícara de áçucar. Quando levantar fervura, jogue os damascos e deixe hidratar. No meio tempo, cheque os e-mails, dê uns sorrisos e leia um pouco mais. Não deixe os damascos queimarem. Quando estiverem macios, mas não moles, retire do fogo, escorra a calda e recheie com as amêndoas. Volte a calda para o fogo e acrescente mais um copo de água, uma colher de água de flor de laranjeira e meio copo de ácuçar. Deixe ferver dez minutos e desligue o fogo. Quando estiver frio, coloque os damascos em um vidro e complete com a calda até cobrir. Terminando, tente lembrar porque começou. Se não conseguir, não se preocupe. Coma um damasco e vá dormir.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Meio-adeus

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um pé de meia
.................perdido
encontrado,
...........dá o recado
.................postergado

- não voltarei

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Definições VII

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Solidão é um mudo, cego e surdo, no meio de uma multidão. Há dois tipos: os que nasceram assim - são raros, e os que ficaram assim - são comuns. Às vezes, alguém se atreve a fazê-lo falar, ou ouvir, ou ver, ou qualquer combinação destes três. Cria-se uma situação instável. Reduz-se a entropia do universo, logo dura pouco. O retorno é inevitável. A solução definitiva não admite a ação de terceiros. Requer que as próprias mãos façam ver, ouvir e falar.

domingo, 4 de janeiro de 2009

A un gato


No son más silenciosos los espejos
ni más furtiva el alba aventurera;
eres, bajo la luna, esa pantera
que nos es dado divisar de lejos.
Por obra indescifrable de un decreto
divino, te buscamos vanamente;
más remoto que el Ganges y el poniente,
tuya es la soledad, tuyo el secreto.
Tu lomo condesciende a la morosa
caricia de mi mano. Has admitido,
desde esa eternidad que ya es olvido,
el amor de la mano recelosa.
En otro tiempo estás. Eres el dueño
de un ámbito cerrado como un sueño

Jorge Luis Borges

Horóscopo de Domingo II

sábado, 3 de janeiro de 2009

Conversation


The tumult in the heart
keep asking questions.
And then it stops and undertakes to answer
in the same tone of voice.
No one could tell the difference.

Uninnocent, these conversations start,
and then engage the senses,
only half-meaning to.
And then there is no choice,
and then there is no sense;

until a name
and all its connotation are the same

Elizabeth Bishop
(O iceberg imaginário e outros poemas,
Ed. Cia das Letras, Org. Paulo Henriques Brito)

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Memórias


Nacib Daher. Quinto filho de um casal recém-imigrado de Richmaya, no Líbano, para o Brasil, no final do século XIX. Honestamente, lembro-me de poucos momentos com meu bisavô. O sobrado. Ele, baixinho, sorrindo, sentado na cadeira da varanda, assobioando com os passarinhos. Curiós e canários. Ele, na casa da praia, brincando comigo no balanço improvisado na amendoeira. Tinha um rosto enigmático - ao menos para mim. Eu e minha prima brincando no balcão da loja. Falava baixo. Sempre. Quase sempre. Havia a Lyra de Arion. Ele amava a música. Definitivamente, algumas coisas passam de pais para filhos. O dia do velório. O silêncio. Mas ele amava a música! Hoje só haverá silêncio. Memórias. Impressões. Sugestões. Restaram os sonhos, quando ele ainda canta baixinho, acompanhando um último canarinho.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Previsões eternas de uma tarde de verão


Continuará a chover nos verões
Ficará mais quente
Nova guerra velha eclodirá
Pessoas continuarão a sofrer por motivos diversos
Muitos nascimentos ocorrerão
Muitas mortes ocorrerão
Alguns sortudos ficarão mais ricos
Muitos infelizes ficarão mais pobres
Ingênuos continuarão a acreditar em Criaturas Imaginárias
Criaturas Imaginárias continuarão existindo
Previsões continuarão a ser feitas
A despeito de acertos e erros, a Terra continuará a girar

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Antipoeta


sem saber o que dizer
- não se vê poeta -
preferiu o silêncio
da escrita - que espera,
permaneça em silêncio
e não seja lida