domingo, 28 de dezembro de 2008
quinta-feira, 25 de dezembro de 2008
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Anamneses

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Leito 3 ou "Des-conto de Natal"
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Noel, 50 anos, pardo, morador da Rocinha. Carrega no ombro o peso da carne e do nome. Se morasse na Vila, poderia ter sido sambista. Mas nasceu no morro. De favela em favela, chegou à maior delas. O físico avantajado ajudou, mas foi o nome que determinou seu lugar no mundo - desde sempre iria ser Papai Noel. Profissão ingrata. Quem é que se satisfaz com o que Papai Noel pode oferecer hoje em dia? Já ouviu-se criança dizer que o velhinho se mudou da Lapônia para o Submarino, de onde envia - via sedex e sem cobrar frete - presentes de todo o tipo, durante o ano todo. Se sempre foi gordinho, talvez o estresse, o desemprego e uma penca de crianças insaciáveis tenham piorado a situação. Hoje, Noel pesa cento e oitenta quilos. Hipertenso, diabético, dislipidêmico, angina. Síndrome metabólica - disse o médico. Precisa perder peso - disse o nutricionista. Vamos reduzir o estômago - disse o cirurgião. Não no Natal - disse Noel. Como poderá haver Natal sem Noel? É urgente - disseram todos. Dia vinte e dois de dezembro o estômago de Noel encolheu. Dia vinte e três, boa recuperação. Dia vinte e quatro, febre alta, dor abdominal, distensão, irritação peritoneal. Chame o cirurgião. Vai precisar abrir. Sepse. Barriga aberta - cena bizarra. O estômago encolhido cresceu. Cheio de formas, em plena atividade criativa cuspia ao intestino carrinhos, bonecas, bolinhas de gude... Presentes de antigamente. Expelidos limpos e embalados, iam enchendo o saco de Noel. O cirurgião tentou, em vão, reduzir novamente o estômago de Noel. Era meia-noite do dia vinte e cinco quando o processo cessou e Noel morreu. Chão abarrotado de presentes, embrulhos com laços de fita. Atestado de óbito. Causa do óbito? Sem saber o que dizer, escreveu: descrença.
terça-feira, 23 de dezembro de 2008
Definições VI
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Natal é quando neva no Rio de Janeiro. A neve - ao que se vê - opera milagres. Desavenças são ignoradas. Promessas são esquecidas. Bonança prevalece. Quem diria que no país do sol e praia seria a neve o catalisador que aquece corações. Para o bem e para o mal, neve é gelo. Gelo derrete rápido sob sol de quarenta graus. Como a água que escorre, o Natal também vai ralo abaixo e, no dia vinte-e-seis, o mundo volta ao normal.
Natal é quando neva no Rio de Janeiro. A neve - ao que se vê - opera milagres. Desavenças são ignoradas. Promessas são esquecidas. Bonança prevalece. Quem diria que no país do sol e praia seria a neve o catalisador que aquece corações. Para o bem e para o mal, neve é gelo. Gelo derrete rápido sob sol de quarenta graus. Como a água que escorre, o Natal também vai ralo abaixo e, no dia vinte-e-seis, o mundo volta ao normal.
Cárcere
perdidas num canto
encontradas
juntando palavras
juntando palavras
jogadas ao vento
recitadas
apagando palavras
deveriam estar
registradas
escrevendo palavras
precisavam ser
encarceradas
escrita
a palavra dita
encarcerada
a alma fica
a palavra dita
encarcerada
a alma fica
num pedaço
de papel
domingo, 21 de dezembro de 2008
O Bóson, o Bozo e a Epistemologia
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Fiz uma descoberta terrível. Você sabia que tudo o que acredita que sabe pode não saber? E o culpado é o bóson de Higgs. Sim. O bóson. Eu, ignorante, não conhecia o bóson - no máximo o Bozo. Ops, seria Peter Higgs a identidade secreta do Bozo? Os bósons (se você mora no Brasil) ou bosões (se mora em Portugal) são partículas que possuem o spin inteiro e obedecem à estatística de Bose-Einstein. Existem vários tipos, todos com nomes bizarros tipo glúons, fótons, e o terrível bóson de Higgs. O problema é que o modelo atual da partícula, o qual explica tudo - já que tudo é feito de partículas - depende da existência do tal bóson de Higgs. Agora, se você não está sentado, sente-se, porque a existência do bóson de Higgs não foi comprovada. Já procuraram em todos os lugares, encontraram vários "ons" da vida, mas nada do tal bóson de Higgs. A última esperança: o LHC (Large Hadron Collider ou Grande Colisor de Hádrons), aquele treco gigantesco, debaixo de solo franco-suiço, que ligaram este ano. Pergunto eu: como é que ficaremos se o bóson de Higgs não for encontrado? Se o bóson de Higgs cair, cairão todos os "ons"? Do que seremos feitos então? Água? Fogo? Vento? Terra? O que é, é, porque o que não é não existe? É possível saber o que é? O que é possível saber? A mais importante: qual a identidade secreta do Bozo? Perguntas sem respostas.
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Higgs e Bozo. Notou a semelhança? Poema de domingo
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um domingo
é
um dia difícil
de definir
pode ser sol e praia - um sorriso
pode ser só para dormir
um domingo
é
um dia difícil
de definir
pode ser sol e praia - um sorriso
pode ser só para dormir
Lição de um Gato Siamês

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
......finita
......da minha precariedade
que existe a eternidade:
é a duração
......finita
......da minha precariedade
O tempo fora
de mim
.............é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
- dura eternamente
...enquanto vivo
E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)
Ferreira Gullar
(Muitas Vozes, José Olympio Editora, 1999)
sábado, 20 de dezembro de 2008
Poema de sábado
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um sábado
.........é só
...........a semana
.......sendo sublimada
..........na pista
.................de dança
sexta-feira, 19 de dezembro de 2008
quinta-feira, 18 de dezembro de 2008
Miado

O gato mia de manhã
cedo demais
mia porque tem fome
ou porque acha que morri?
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O gato mia ao meio-dia
ninguém para ouvir
mia porque está só
ou porque acha que não voltarei?
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O gato mia à noite
tarde demais
mia porque quer a gata
ou para lembrar-se que ainda é gato?
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Miado de gato é como biscoito chinês
da sorte - cada um traz uma mensagem
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Nem sempre dá para entender
o que está escrito
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Poema de quarta
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uma quarta
....................feira
.é só
........o dia
............de ir
....................à feira
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Poema de terça
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uma terça
..........feira
..................ainda
.....................é um
............terço
......de semana
Soneto do Gato Morto
Um gato vivo é qualquer coisa linda Nada existe com mais serenidade
Mesmo parado ele caminha ainda
As selvas sinuosas da saudade
De ter sido feroz. À sua vinda
Altas correntes de eletricidade
Rompem do ar as lâminas em cinza
Numa silenciosa tempestade.
Por isso ele está sempre a rir de cada
Um de nós, e ao morrer perde o veludo
Fica torpe, ao avesso, opaco, torto
Acaba, é o antigato; porque nada
Nada parece mais com o fim de tudo
Que um gato morto.
Vinícius de Morais
(Nova Antologia Poética, Cia das Letras, 2008)
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PS.: O Blorges voltou e está atualizado...
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